O escutismo continua a ensinar “paz, empatia e diálogo” num mundo marcado por guerras, divisões e individualismo, defendeu hoje a chefe do Agrupamento 697 do Corpo Nacional de Escutas, que assinala 20 anos da Escapadinha dos Mourões, em Abrantes.
“Num mundo com guerras, divisões e desafios ambientais, o escutismo continua a ensinar paz, empatia e diálogo”, afirmou à Lusa Ana Poupino, chefe do Agrupamento 697, de Rossio ao Sul do Tejo, considerando que o movimento mantém “uma importância muito grande” na formação dos jovens e na promoção de valores de solidariedade, serviço e consciência ambiental.
A 20.ª edição da Escapadinha dos Mourões decorre entre hoje e domingo, em Abrantes, no distrito de Santarém, e reúne cerca de 700 escuteiros de 23 agrupamentos das regiões do Alto Douro, Aveiro, Beira Baixa, Alto Alentejo e Ribatejo, numa atividade organizada pelo Agrupamento 697 sob o tema “As Mensagens do Rossio”, inspirado na história e identidade local.
Para Ana Poupino, o escutismo continua a afirmar-se como uma resposta a uma sociedade “muito centrada no digital” e, por vezes, “no individualismo”, sobretudo entre os mais jovens.
“Aqui não existe o eu. Existe o todos”, afirmou, explicando que os escuteiros aprendem a trabalhar “em bandos, patrulhas e equipas” e a adaptar-se ao ritmo do grupo. “O mais fraco não fica para trás. O mais forte vai atrás”, acrescentou.
A dirigente admitiu que um dos principais desafios atuais passa pela dificuldade em impor regras e limites numa geração habituada ao imediatismo e às redes sociais.
“Aqui, o telemóvel muitas vezes fica guardado dentro da caixinha e só é dado no fim”, afirmou, reconhecendo que essa realidade leva algumas famílias a afastarem-se do movimento.
“Temos regras e elas têm de ser cumpridas, até por uma questão de segurança. Quando estamos com crianças que não são os nossos filhos, a responsabilidade é nossa”, sublinhou.
A ligação à natureza e a educação ambiental continuam também a ser pilares centrais do escutismo, através de ações de separação de resíduos, limpeza de rios e sensibilização ecológica.
“Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos não é apenas uma frase bonita, é um princípio vivido”, afirmou Ana Poupino, considerando que os princípios deixados por Robert Baden-Powell “continuam atuais”.
A chefe escutista destacou ainda a dimensão comunitária da Escapadinha dos Mourões, cuja organização mobiliza dezenas de dirigentes, pais e antigos escuteiros.
“É um trabalho feito em equipa e não o trabalho de uma pessoa”, afirmou, destacando o envolvimento de cerca de 30 a 40 pais na logística da atividade, desde refeições a apoio operacional.
Entre os dirigentes mais jovens está João Calado, de 23 anos, que considera que o principal desafio do movimento será “contrariar a tecnologia” e continuar a atrair jovens para experiências de contacto humano e vida ao ar livre.
“As tecnologias vão sempre ganhar algum espaço àquilo que nós tentamos fazer aqui”, admitiu, defendendo, ainda assim, que “nada substitui” a experiência vivida nas atividades escutistas.
“O que me dá mais satisfação é ver um sorriso no final das atividades. Não há nada que pague isso”, afirmou.
A dimensão intergeracional do movimento é simbolizada por Vítor Almeida, de 83 anos, antigo chefe do agrupamento e um dos rostos ligados à primeira edição da Escapadinha dos Mourões, há duas décadas.
“As pessoas têm de ser unidas”, afirmou, defendendo que o escutismo continua a ensinar “liderança, responsabilidade e trabalho em equipa”.
Para Ana Poupino, a permanência de dirigentes históricos como Vítor Almeida representa continuidade e identidade no agrupamento, sublinhando a ligação entre gerações no escutismo.
Lusa